Juntar o que o Homem separa
Sábado de manhā, sozinha com os dois miúdos já que o marido trabalha, decidi apanhar os transportes públicos até a um grande parque nas proximidades.
Como tenho o hábito de viajar de tramway com o carrinho de bébé deixei-me ficar numa zona larga do corredor, perto da porta e de uns bancos prioritários que lá estão.
Uma Senhora já com bastante idade estava sentada num desses bancos. Ao lado dela uma outra Senhora bem mais jovem e aparentemente válida e bem posta, com os olhos postos no telemóvel. As duas senhoras não estavam juntas.
A idosa, num ato de generosidade, oferece-me o seu lugar. Naturalmente recusei, sorri e agradeci. Nisto a outra passageira levanta nesse momento os olhos do ecrã e responde à velhota, com o ar mais condescendante do mundo:" A Senhora (neste caso eu...) que se vá sentar noutro sitio há bastantes lugares livres para ela."
A velhota ainda se tentou defender: que com o carrinho aqueles bancos são os mais espaçosos, que não corria riscos porque estava sentada na mesma, mas a vizinha já nem a ouviu.
Deu a sua lição de moral, sem ouvir tudo até ao fim, a voltou ao Mundo Virtual.
Achei a situação curiosa e ilustrativa do Mundo atual, cheio de gente bem intencionada, mas que não ouve absolumente nada mas que sente necessidade de se meter em tudo. E depois admiramos-nos de estarmos tão sozinhos...
Aquela Senhora não nos deu uma lição de respeito, pois era ela das três a única que tinha realmente o seu lugar num banco prioritário, mas deu-nos uma valente lição de consideração: este é o unico lugar onde se pode sentar e ter o carrinho de bébé perto de si era o argumento que usava.
E isso é mais do que respeito, é ajudar o outro à sua maneira. A outra Senhora baixou a cabeça cedo demais e provavelmente já não ouviu a lição. Eu pessoalmente tão depressa não a esquecerei.
É com senhoras como esta e com gestos destes: desinteressados e gratuitos, que podemos juntar o que o Homem separou, que é como quem diz uns dos outros.
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